Civilização Amish: os padrões do passado poderão ser os do nosso futuro
O princípio de tudo que conhecemos e compreendemos se dá na química biológica das coisas vivas. Devido às milhares combinações de adeninas, timinas, guaninas e citosinas, aminoácidos responsáveis por nossa estrutura molecular e funções biológicas, nascemos loiros, ruivos, morenos, brancos, negros, amarelos, altos, baixos, ora normais, ora não tanto. Mistérios da Natureza que aos poucos o ser humano vem descobrindo e modificando ao seu bel prazer, conforme o avanço da medicina, tanto com as descobertas científicas como em sua própria tecnologia. Creio por isso que o primeiro responsável por aquilo que somos hoje, em todos os aspectos, que no caso vem a ser a moda propriamente dita é aquilo que o nosso DNA nos permite. Como explicar então a quantidade de pessoas que se interessa por um determinado assunto, como Moda? Arrisco o palpite da pouca variedade de assuntos em relação à quantidade de seres humanos existentes: seis bilhões e crescendo. Previsões socioeconômicas estimam que em 40 anos o número de seres humanos irá dobrar. E se dobrar? O que irá acontecer? Podemos pensar as tão comentadas reservas naturais que estão praticamente esgotadas. Como a moda vai suportar tal deficiência material? Qual o futuro da moda como a conhecemos hoje? Tecnologia? Será? Porque queira quer não a moda não é auto-sustentável. Ela é extrativista. E mesmo se usarmos o que já existe como re-utilização de tecidos [fibras naturais] e reciclagem [mineral], ou replantação de arvores que forneçam a matéria prima, tentando fechar o círculo da sustentabilidade, ainda assim, seria extrativista. A sustentabilidade só deixará de ser utopia quando a capacidade de reposição for maior a quantidade de consumo global.
Teses sobre o futuro da moda à parte, a grande questão que fica é: como a moda responderá as necessidades dos seres humanos daqui algumas décadas ou séculos? Dizem que só dominaremos o futuro se conhecermos o nosso passado, e digo isso com convicção, pois o aprendizado só surge com as tentativas de erro e acerto. Talvez a moda tenha uma grande reviravolta no futuro, onde as pessoas, sejam lá as dificuldades que possam vir a surgir, procurem não seguir mais tendências e estilos, e tornem-se menos consumistas, deixando somente a tecnologia guiar a vida, e evitando a destruição generalizada. Só digo que é uma possibilidade. É tão possível essa realidade que hoje mesmo existe um grupo de pessoas vivendo isso. Chegamos ao ponto da discussão do presente trabalho: Os Amishes. Indubitavelmente, para falar sobre os Amishes, teríamos que entrar em questões religiosas, pois o modo de vida deles é baseado na religião protestante. É uma ramificação do protestantismo radical na Suíça do início do século XVII, com o surgimento dos Anabaptistas [acreditam no batismo consciente e por isso somente na fase adulta] e, por conseguinte os Mennonistas. Devido a épocas de perseguições religiosas e militares na Europa [iam de encontro com alguns preceitos religiosos cristãos e sua fé não permitia que pegassem em armas de fogo], migraram à América do Norte e se estabeleceram na região da Pensilvânia. E como falar de religião é igualmente complicado como política e mulheres [sic], pois existem diversas ‘visões’ sobre o assunto. A própria teologia apostólica romana se contradiz em alguns pontos, por exemplo, nas frases do papa Gregório, o Grande, o qual dizia: “O corpo é a abominável roupa da alma”. Contraditória a de Paulo [apóstolo]: “O corpo é o tabernáculo do Espírito Santo”. E o que pensar quando Aristóteles diz que “a alma é a forma do corpo”? Prefiro ficar com os dois últimos, já que o próprio antigo testamento nos ensina que “o Verbo fez-se carne”. E se nós somos obras do divino, então seria um sacrilégio criticar o corpo como mundano.
Recentemente [outubro de 2006] os Amishes tiveram uma repercussão mundial grande devido ao massacre na escola da comunidade do condado de Lancaster, e devido a essa projeção midiática percebi esse trabalho. Conhecidos por preferirem o estilo de vida mais arcaico e por serem muito conservadores e discretos, eles são exemplo vivo de que o ser humano pode viver em condições não condizentes com nossa atualidade moderna. Se, e retifico que somente se, estivermos fadados a um futuro inóspito e sem recursos, talvez sejamos obrigados a olhar nosso passado e ‘aceitar’ uma condição mais regrada e disciplinada como é a vida em sociedade Amish. É interessante como o radicalismo nos soa sedutor, pois se pensarmos a estratégia utilizada por um corpo [no caso de um cidadão Amish] que é a estratégia da não estratégia; simplesmente não querem se ‘comunicar’ visualmente [desapego à estética], a principio das vestimentas que usam: basicamente dois tipos de roupas; a masculina e feminina bem definida [que se mantém igual em todas as idades de ambos os sexos], percebemos que o extremismo de se tornarem “invisíveis” à sociedade, queira quer não chama a atenção. Seria a repetição excessiva de um mesmo padrão visual o motivo da nossa ‘cegueira’. Existe aquela piada que diz que quando vamos ao Japão, ficamos alheios ao mesmo rosto nos encarando.
É quase um efeito de antimoda que eles causam, o qual segundo Queila Ferraz Monteiro, professora de História da Moda, diz em um artigo seu publicado no site FashionBubbles¹, ser um efeito causado pelo surgimento do dandismo no final do século XIX. E ainda segundo ela nesse artigo, o dandismo surge como “estilo que introduziu através do vestuário convencional masculino, a antimoda e também o estilo de oposição”. E os Amishes são bem de oposição, os do ‘contra’, e porque não integrantes de uma possível contracultura? Seriam os amishes rebeldes?
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¹ http://www.fashionbubbles.com/2006/sobre-dandis-e-antimoda-masculina/
Análise fotográfica:
Fig1
Fig2
Fig3.
Olha quanta coisa nos faz pensar sobre a ‘singeleza’ dos Amishes: o que os difere dos punks como ‘tribo’ amplamente levantada durante esse curso? Nada. São exatamente iguais, mas diferentes no ‘look’. Mas é necessária uma ressalva, pois o dandismo se direciona somente aos homens. E as mulheres? Novamente recorro a Ferraz para justificar o caso das mulheres: “A antimoda é a elegância que nunca chama atenção, cuja simplicidade que Chanel reinterpretou para as mulheres no século XX. É a tentativa de encontrar um estilo sem época, de eliminar por completo o elemento de mudança na moda”. Uma coisa em comum é a cor preta, e cores frias. Sóbria, conservadora, parecem estarem sempre de luto [visão ocidentalista, já que o branco é o luto para os orientais, e várias outras culturas]. Com essas palavras tento esclarecer um pouco o estilo Amish, assim como tantos outros grupos sociais, ou ‘tribos’ sociais que se utilizam desse recurso [estratégias] para continuar a perpetuação de suas tradições, crenças, estilos de vida, e que, se estagnarmos como civilização avançada, moderna, e ‘mutante’, no âmbito da moda e das demais coisas, talvez sejamos forçados ao êxodo urbano, um retrocesso da evolução.
Uma referência hollywoodiana é o filme “A Vila [The Village - 2004]”.