Discutindo Moda

By bacanissimo

Por Diego Andia

A moda para os que não podem com ela

Quando pensamos em moda, lembramos de grandes marcas, ou mesmo aquela loja na esquina da sua casa que vende roupas certeiramente condizentes com seu tamanho e com o seu bolso. Uma máquina feroz que não descança nem noite nem dia, sua linha de montagem e que continuamente fica produzindo milhões e milhões de peças que num ciclo vicioso desde a matéria prima, chega pronta, toda costurada, nas cores, formas e detalhes que a moda dita a cada seis meses. Isso num mundo de 6 bilhões de pessoas.

Isso me faz pensar. E as pessoas que não podem com essa moda, como ficam? Falo fisicamente. Seus corpos não condizem nem no tamanho, vá dizer com o bolso! Por isso, diante de textos de Kathia Castilho sob a proposta da construção da imagem corpórea que cada indivíduo toma, e digo isso no âmbito de modificação estética, como tatuagens, piercings e etc, questiono alguns trechos.

1º trecho

“… O sujeito enquanto enunciador constrói sobre seu corpo um certo discurso que objetiva sua presentificação ou performance, expondo uma certa prática de edificação de atuação dos enunciados que se encontra já incorporada à sua ação do vestir. O próprio atuar, ou seja, vestir-se, o exibe, já que no próprio enunciado estão inseridas suas concepções. “Seus posicionamentos, pontos de vistas, apreciações e valores explicitam-se pelo modo como ele organiza o discurso: na escolha das cores, no uso específico de uma forma, no emprego reiterado da mesma figura, no gênero de iluminação utilizada, na estruturação de um ritmo, na opção por determinada distribuição etc…” A.C.de Oliveira.

2º trecho

Também há uma relação do movimento ou articulação natural do corpo humano que é inerente e interior à possibilidade de articulação que o traje impõe ao corpo. A roupa lhe concede um movimento exterior diferenciado e segundo A.C. De Oliveira: “as roupas interferem diretamente no movimento do corpo, na medida em que elas o acompanham, o assinalam,outras vezes o restringem ou ao contrário, o convidam e portanto, elas o controlam” Ana Claudia M. A. de Oliveira.

3º trecho

Se a necessidade de distinção original entre os homens, especificamente, no campo da sexualidade – distinção entre feminino e masculino – perpetua-se na cultura e as concepções são estruturadas nesse principio binário, o que poderíamos dizer sobre o unissex? Após a década de 1960, existe realmente uma tentativa de reorganização estética mediante princípios baseados na igualdade sexual, política, social e econômica dos sexos, que se comprometem com a idéia de androginia e hermafroditismo, concepções distantes do conceito fundamental da comunicação humana. Se o corpo é revestido de forma mais democrática e as possibilidades de vestir e revestir o corpo tornam-se amplas e os papéis sociais que correspondiam a cada sexo misturam-se enfocando um novo modelo social, a forma de atrair e exibir os atrativos de cada configuração corpórea deve manter algumas características que garantam o reconhecimento da sexualidade, ainda que ela esteja dissimulada…”

 

Tatuagens e escarificações, assim como o vestuário, re-modelam corpos, que, por sua vez, vão sinalizar a idéia de pertencimento do sujeito a determinados grupos – em detrimento de outros. Tal afirmação é fato. Mas o que acontece com aquele nicho de pessoas que possuem em seus corpos as “formas” irregulares dadas pela própria mãe natureza¹? Sem intervenções provocadas pelo homem com o intuito de se pertencer a um grupo? Será que tal pensamento se aplica a eles?

Falo das pessoas que possuem deformidades genéticas, doenças crônicas de nascença, e que por si só fazem parte de uma pequena parcela da sociedade. Será que fazem? Questiono isso, pois entro na questão de preconceitos. E falar disso requer mais tempo e mais conteúdo acadêmico. Mas tentarei ser sucinto.

Falamos do corpo, da pele, da roupa, da segunda pele, das formas, das cores, dos estilos, do luxo, da sexualidade, comportamento, da pós-modernidade, de tatuagens e intervenções com objetos que o homem faz para, de forma resumida, expressar seus sentimentos, desejos etc.

E tudo isso é explicado quando entendemos que existem bilhões e bilhões de pessoas no mundo, e que cada um tem o seu estilo. A moda é uma metralhadora de possibilidades, certo? Não, somente em termos. A moda possibilita aquilo que é viável em escala mundial. Você pode ter seu estilo, mas só o fará se comprar peças que foram feitas em escalas industriais, ou em casos específico, se você mesmo as fez.

Digo isso pensando naquelas pessoas que são realmente excluídas da sociedade e tratadas como freaks. Imaginem todas as situações que essas pessoas passaram por ser diferentes, não por que elas escolheram, mas porque foram impostas a tal situação. A moda não comporta tal imposição. A moda quer o belo [ou procurar deixar o estranho bem legal], o descolado, e mesmo buscando suas inspirações no absurdo muitas vezes, eu não vejo como a moda pode comportar em pleno século 21, pessoas com duas cabeças, com nenhuma perna ou braço. Pensem, até 1940 era comum encontrar casas de espetáculos nos EUA, chamadas de Freakhouses ou Circus. Os Freakshows, aonde mostravam pessoas com elefantíase, pessoas siamesas, com protuberâncias pelo corpo, as ‘mulheres barbadas’, corcundas, faquires com suas peles naturalmente mais grossas e secas, etc.

freakhousefreakhouse

 

 

O ponto que quero chegar é levantar esse questionamento, e não simplesmente fazer uma atividade de comentário que iria cair em um lugar comum. Todos sendo direcionados para um raciocínio em comum, mesmo com imagens diferentes. Seria redundante.

Vejam a foto abaixo:

Albert-Alberta Karas

albert

 

 

Como a moda encara na realidade a duplicidade de sexos? Albert-Alberta Karas foi por muitos anos, usado em espetáculos por possuir um lado masculino e o outro feminino, e incluindo os dois sexos. Questiono como a moda hoje faria para vesti-lo, sem cair no caricato e eufemismos. Unissex? O terceiro trecho que extraí se aplica nesse ponto.

Temos o caso de Grady Stiles, o homem caranguejo:

mão

Se ele quisesse comprar um par de luvas da Dolce&Gabbana, que supostamente é sua marca preferida, como ele faria?

Na verdade, toda essa história de que a moda e todas suas facetas permitem ao ser humano se expressar livremente como e quando quer, além de permitir que as pessoas possam tem aquilo que querem no âmbito de compras, para mim soam como mentira, ou no mínimo incompletas.

 

Como uma pessoa como Joseph Marrick, o homem elefante, poderia se expressar livremente e ser respeitado como ‘indivíduo’ [realmente ele era singular] sem cair na aberração e julgamentos por parte da população atual? Como vestir esse corpo? Chapéus, sapatos, camisas, calças?

freak freak

O 2º trecho se aplica nesse questionamento.

Agora pretendo quebrar o conceito do 1º trecho:

Chang e Eng Burker, irmãos siameses unidos pela barriga.

chineses

 

Mary e Elizabeth Chulkhurst, irmãs siamesas unidas pelas nádegas.

siamesas

 

O sujeito enquanto enunciador constrói sobre seu corpo um certo discurso que objetiva sua presentificação ou performance, expondo uma certa prática de edificação de atuação dos enunciados que se encontra já incorporada à sua ação do vestir. O próprio atuar, ou seja, vestir-se, o exibe, já que no próprio enunciado estão inseridas suas concepções. “Seus posicionamentos, pontos de vistas, apreciações e valores explicitam-se pelo modo como ele organiza o discurso: na escolha das cores, no uso específico de uma forma, no emprego reiterado da mesma figura, no gênero de iluminação utilizada, na estruturação de um ritmo, na opção por determinada distribuição.

Como podem pessoas unidas uma a outra, discursarem o que pensam através das roupas? Como construir um repertório singular, mesmo que unidos e sendo pessoas distintas, com gostos distintos, preferências distintas, já que seus corpos não permitem?

A real é que existem aos milhões nesse mundão de deus, pessoas que se sentem alheias à esse mundo da moda e que esta nem se quer se preocupa em agregar essa parcela da sociedade no âmbito mercadológico. Termino esse curso pensando dessa forma: “a moda é tudo, menos roupa” – Erica Palomino. Com toda certeza, pelo menos para esse tipo de gente.

 

pernas anãpernas dobradas

unicornio metade

 

Fonte: http://freaks.monstrous.com/index.htm

 

Mesmo que a moda [da época das fotos, ou até nos dias de hoje mesmo] teoricamente tem o poder de agregar pessoas, seja através da roupa, do comportamento delas [natural ou imposta], mesmo o modo que essas pessoas ‘deformadas’ se vestiam [tentavam] de acordo com a moda vigente de sua época [percebemos saiotes, espartilhos, babadinhos, etc], há uma certa segregação. Do que adianta estar na moda, se você não é amparado pela mesma. Digo isso, porque não há moda comercial para esse público. Não vejo marcas brasileiras ou internacionais preocupadas em fazer roupa, por exemplo, para pessoas que não tem braços ou pernas. Pra que elas precisam de mangas e calças? Não poderiam inventar novas formas [ditas esgotadas]? E as pessoas que possuem pés deformados? Onde encontrar sapatos? Eles serão escravos dos chinelos pra sempre [se é que esses vão ser úteis e funcionais]? Como fazer roupas que não agridem a pele de pessoas que têm hipersensibilidade? Alergia? Ficariam sempre nuas, com o mínimo de tecido sobre o corpo?

Questiono o mercado em si, não a moda como criação. Muitas pessoas não podem vestir o que existe, pois a roupa em si dificulta a vida delas. Isso é fato.

 

¹- não quero fazer generalizações e discursar de forma preconceituosa e segregadora, pois como eu disse em outros trabalhos, o feio e o belo são gêneros de beleza. Acredito que tudo que vem da Natureza está em perfeita união com tudo e o todo. Todos somos o que somos e isso por si só é perfeição, é belo. Grande filosofia taoísta. Todas as coisas que existem, existem para uma função. Devemos despertar para isso.

 

 

 

 

 

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